sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

20

Vinte anos


Pela campina as borboletas se amam ao estrépito das asas.
Tudo quietação de folhas. E um sol frio
Interiorizando as almas.
Mergulhado em mim mesmo, com os olhos errando na campina
Eu me lembro da minha juventude.
Penso nela como os velhos na mocidade distante:
- Na minha juventude...

Eu fui feliz nesse passado grato
Viviam então em mim forças que já me faltam.
Possuía a mesma sinceridade nos bons e maus sentimentos.
Aos frenesis da carne se sucediam os grandes misticismos quietos.
Era um pequeno condor que ama as alturas
E tem confiança nas garras.
Tinha fé em Deus e em mim mesmo
Confessava-me todo domingo
E tornava a pecar toda segunda-feira
Tinha paixão por mulheres casadas
E fazia sonetos sentimentais e realistas
Que catalogava num grande livro preto
A que tinha posto o nome de Foederis Arca.

A minha juventude...
Onde eu seguia ansioso Tartarin pelos Alpes
E Júlio Verne foi o mais audaz de todos os cérebros...
Onde Mr. Pickwick era a alegria das noites de frio
E Athos o mais perfeito de todos os homens...
A minha juventude
Onde Cervantes não era o filósofo de D. Quixote...

A minha juventude
E a noite passada em claro chorando Jean Valjean que Victor Hugo matara…
Como vai longe tudo!
Pesa-me como uma sufocação meus próximos vinte anos
E esta experiência das coisas que aumenta a cada dia.
Medo de ser jovem agora e ser ridículo
Medo da morte futura que a minha juventude desprezava
Medo de tudo, medo de mim próprio
Do tédio das vigílias e do tédio dos dias…
Virá para mim uma velhice como vem para os outros
Que me dissecará na experiência?

Da campina verde voaram as borboletas…

Só a quietação das folhas 

E o meu turbilhão de pensamentos.




A hora íntima



Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Quem, dentre amigos, tão amigo
Para estar no caixão comigo?
Quem, em meio ao funeral
Dirá de mim: - Nunca fez mal...
Quem, bêbedo, chorará em voz alta
De não me ter trazido nada?
Quem virá despetalar pétalas
No meu túmulo de poeta?
Quem jogará timidamente
Na terra um grão de semente?
Quem elevará o olhar covarde
Até a estrela da tarde?
Quem me dirá palavras mágicas
Capazes de empalidecer o mármore?
Quem, oculta em véus escuros
Se crucificará nos muros?
Quem, macerada de desgosto
Sorrirá: - Rei morto, rei posto...
Quantas, debruçadas sobre o báratro
Sentirão as dores do parto?
Qual a que, branca de receio
Tocará o botão do seio?
Quem, louca, se jogará de bruços
A soluçar tantos soluços
Que há de despertar receios?
Quantos, os maxilares contraídos
O sangue a pulsar nas cicatrizes
Dirão: - Foi um doido amigo...
Quem, criança, olhando a terra
Ao ver movimentar-se um verme
Observará um ar de critério?
Quem, em circunstância oficial
Há de propor meu pedestal?
Quais os que, vindos da montanha
Terão circunspecção tamanha
Que eu hei de rir branco de cal?
Qual a que, o rosto sulcado de vento
Lançará um punhado de sal
Na minha cova de cimento?
Quem cantará canções de amigo
No dia do meu funeral?
Qual a que não estará presente
Por motivo circunstancial?
Quem cravará no seio duro
Uma lâmina enferrujada?
Quem, em seu verbo inconsútil
Há de orar: - Deus o tenha em sua guarda.
Qual o amigo que a sós consigo
Pensará: - Não há de ser nada...
Quem será a estranha figura
A um tronco de árvore encostada
Com um olhar frio e um ar de dúvida?
Quem se abraçará comigo
Que terá de ser arrancada?

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
Rio de Janeiro, 1950.
Vinícius de Moraes

Tristeza não tem fim...


Tristeza não tem fim Felicidade sim 

A felicidade é como a gota 
De orvalho numa pétala de flor 
Brilha tranqüila 
Depois de leve oscila 
E cai como uma lágrima de amor 

A felicidade do pobre parece 
A grande ilusão do carnaval 
A gente trabalha o ano inteiro 
Por um momento de sonho 
Pra fazer a fantasia 
De rei ou de pirata ou jardineira 
Pra tudo se acabar na quarta-feira 

Tristeza não tem fim 
Felicidade sim 

A felicidade é como a pluma 
Que o vento vai levando pelo ar 
Voa tão leve 
Mas tem a vida breve 
Precisa que haja vento sem parar 

A minha felicidade está sonhando 
Nos olhos da minha namorada 
É como esta noite, passando, passando 
Em busca da madrugada 
Falem baixo, por favor 
Pra que ela acorde alegre com o dia 
Oferecendo beijos de amor

FOTO-ROSA HUMANA


Viagem astral-Sonho I

Fui visitar em sonho,um lugar muito lindo.Era simples.No meio do mar,troncos de madeira flutuavam...Tipo uma espécie de bar,mas nada de cadeiras ou mesas,uma simples maloca completamente de madeira.Eu estava lá,em cima do tronco.A água batia na madeira e espirrava algumas gotas em mim....Eu olhava pro horizonte,esperando sabe lá o que,ou quem.Acredito que era apenas uma visitinha do meu espírito ao meu paraíso astral,meu lugar de reflexão.Encaro agora como um momento de fuga da minha triste realidade.Na época do sonho,eu estava cega por um amor talvez fracassado.Desistente.Mas foi lindo.O surpreendente é que foi estupidamente lindo.Eu até sentia medo,mas um medo beem lá no fundo da alma.Medo daquela imensidão,mas pensa que eu me sentia pequena?não.Eu me sentia parte daquilo,eu era um pouco daquilo.Absolutamente sozinha,me segurando com o braço direito e observando o infinito do mar.A luz foi caindo,a luz do dia.De repente o mar todo estava coberto por uma capa de flores laranjas,folhas...flores laranjas.Parecia um....sei lá.Não parecia nada.Não há nada parecido com aquilo.A cor do mar agora se confundia com a cor do próprio céu.Depois a cor mudava,ficava lilás,roxo....flores roxas flutuando no mar....A coisa mais linda do mundo,sabe-se lá que mundo.Acho que o meu.Talvez tenha sido a dimensão mais linda já visitada pelo meu espírito.Porque eu sentia uma paz...Ah,que vontade de ir lá de novo.Mas nem sempre consigo mentalizar da maneira correta aquele astral.Preciso estar muito bem e quer saber?agora mesmo não estou.Mas lembro-me muuuito bem dessa viagem.Eu fiz questão de deixar registrada aqui.Não sei por que.Talvez porque um dia eu possa esquecer-o que eu acho muito difícil-.Difícil também é ir lá de novo.Eu me permiti viajar até lá na época,ou me permitiram,ou eu consegui,mas não é tão fácil.Nossa,que mundo,que vista,que sensação de liberdade-aliás,uma liberdade indescritível,não essa liberdade terrena conhecida,uma liberdade plena!.Nunca havia experimentado nada parecido.Já visitei montanhas,rios longos e lindos,de noite,sobrevoando no silencio da madrugada esses lugares magníficos.Desafiando meu medo de estar só.Mas acredito que no fundo,fosse essa a mensagem que meu passado quisesse me dizer.."aprenda a ser só"."Você tem tudo isso...isso é seu".Mas como eu disse,eu nunca fui ou senti um lugar que fincasse tanto um sentimento de reflexão em mim.As vezes eu viajo só pra me sentir um pouco em paz mesmo.Mas dessa vez,eu tava com saudade.Sei lá,não sei bem dizer...Queria ver...queria estar lá.Apenas estar.E o vento,já ia me esquecendo desse detalhe.Eu sentia o vento da maré batendo bem no rosto.Forte.A maré ficava mais agitada e me desafiava no meu...Foi ficando tarde,eu sabia que tinha que ir embora dali.Já estava na hora.Eu lembro de encostar,mergulhar um pouco meu pé na água,só pra sentir..Mas foi rápido.A sensação foi diminuindo,eu já fui sentindo um pouco mais de medo.Deixando de pertencer aquilo.E sinto falta,falta de estar num lugar tão lindo.Falta de sentir essa beleza em mim.Já me sinto só de novo.Preciso tentar ir em mais algum lugar....Agradeço aos meus guias que me ajudaram a ir até lá pra descansar um pouco.Repensar um pouco.Respirar um pouco.Espero conseguir mais uma vez.Agora eu associo os sonhos de maneira muito mais completa,pois no decorrer da minha vida,eles sempre significaram muito.Astral!Puro e simplesmente fascinante.

sábado, 24 de novembro de 2012

Perdida entre os mundos


se joga!

Se joga,menina!-mulher-
mulheres...
à sombra da hora marcada,eu espero sentada a tua doce companhia.Mas como eu estou cansada,sento no banco da praça e vejo os idosos a caminhar.Na barraca,só vende água de coco gelada- e eu não gosto- ou não quero.O céu da já esta escuro e eu estou contando as horas pra te ver chegar.Aquele andar amargo de quem viveu pelas ruas à procura dos meus encantos.Penso: Será que ainda vem?.Pensei ainda ser cedo,mas não.Já é tarde.E você não vem.Eu estou em total solidão.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012


O MEDO

-Medos

doce mentira

Foi tudo uma doce mentira...
Quando olhavas nos meus olhos
Quando bem ou mal dizias
Quando dizias no meu ouvido
as mais ridículas poesias...
Me pedia em casamento
Me propôs segurança e alegria
Só me deste o amargo
E a tua melancolia
O Sorriso aberto sempre existia
as caretas,os pedidos
os desejos
a agonia

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Corp(oral)

Talvez seja isso mesmo,essa coisa errante que nos mostra no desespero, a verdadeira carne.Que incrível esse monte de pele cobrindo o cru.E o nu?Pra se esfregar,pra se molhar,pra se deleitar.É caos multiplicado...deixa eu ver...meio assimétrico,algumas cicatrizes,um pouco de pêlos,umas curvas e um só condutor...Todos os caminhos levam ao corpo.E o odor que simboliza o trabalho,a dor.O aroma,o fedor.É tudo tão cru que a impressão é: Vai explodir!Excitante.
Ai ai,meus limites.Os limites da carne...É belo,seja como for...Grandes colos,pequenas coxas,muitas curvas,poucos cantos,desalinhado.Mas é bonito demais.Não achas?eu acho!Nossa casa,nosso lugar.O lugar da dor.Como eu te mostrei,demais até!A gente se esconde pra quê,afinal?
O corpo fala tudo em silêncio.Ele também grita em silêncio,é possível isso?O corpo é armadilha.É gentileza.É o poder da natureza!é tudo...


Peregrino

-Peregrino,vai te logo do meu coração pois eu já cansei de vagar sem rumo,de andar no sol,de dormir no frio à procura das tuas terras inférteis.Que quando me prometeste abrigo,eu ainda era pequena,no entanto alimentaste meu sonho infantil de viajar pelo mundo,mas sequei à fome do meu desespero,da minha intrépida vontade de repousar na sombra tua.Vai te antes que eu deseje querer ainda o ronco seco
 do teu estômago,procura te numa cidade qualquer mais rica e vazia de mim,com mais cinza e menos azul do céu.Vai te antes que a chuva caia,pois talvez,quem sabe eu consiga fazer com que ela molhe teus caminhos,pra que tu percorras macio no teu deserto,com as fúteis moradas que encontrares,pra que tu aches,quem sabe,outro burro para carregar teu fardo,pra te dar companhia imperfeita,com aquele sorriso seco que precedia o teu choro doente de minhas carícias.O sertão jaz silencioso,minha estrada seca pros teus pés feridos,mas de noite sei que dormirás a sombra da lua,do encosto sentido dos sonhos meus...-


O rio de mim

(...)Que como água,corre pelo pescoço a obra que fizeste nas minhas entranhas
do entender que não era pra ser,nem existir a correnteza iludida(...)
Do frio,entendo que não corre água gelada,nem fica parada,nem molha...
Eu banhava
Esperava com os pés dentro d'água 
O sol nascia e 
O rio de mim morria...

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Pássaro

Passarinho bem te vi
passa bem longe de mim...
Que teu desejo
é me ver triste assim...

Olhos tão negros
Deixam  minha vista turva
Cegam todos meus medos
Quando estou longe da chuva

Mas logo encontro o mar
No horizonte que me espera
navegar...
Mas tanta maresia é nada
perto da imensidão do sorriso
e beleza da manhã
o ouvir cantando na janela
desejos
Meus voos por você
irei ver lá de cima
tuas asas
tão frágeis


Lia

...

-Perde-se ao tentar se encontrar
o caminho é escuro demais
E a mesma tentativa é fracasso diante da desistência
de se achar
e se perder
em meio ao caos de si mesmo.



Lia

homé destruidor

Desde que foste eu perdi o caminho das minhas ilusões
não consigo me apaixonar,nem sentir
verdadeiramente o que sou e o que são pra mim
destruiste cada faísca de sentimento que
agora tento reacender
a chama velha do meu desgosto
de ter feito tanto sabor em tua boca
e ouvir tantas harmonias do teus dedos............
errei em deixar de ser menos eu
para ser mais tua
e menos de mim mesma
agora essa dor de ouvir tanta loucura dos outros
tantos amores que estou perdendo
tantas oportunidades que eu deixo ir
que eu fico pensando : teria sido diferente se eu não tivesse aceitado tua súplica naquela tarde,aquela ida ao bar?


-Quanta viagem...


lia

domingo, 26 de agosto de 2012

Amanhã...

"Deixa assim,no voo da liberdade
Que atrás de mim eu escondo a saudade
E o coração que insiste em mexer
Encontra nas ruas o que o sol apagou
Toda a escuridão que não se quis
teimo em clarear
Pra respirar sem dor e pra desembaraçar
O amanhã que não se vê..."

Lia

Mutantes E Seus Cometas No País do Baurets


"Há sempre um tempo no tempo em que o corpo do
homem apodrece
E sua alma cansada, penada, se afunda no chão
E o bruxo do luxo baixado o capucho chorando num nicho capacho do lixo
Caprichos não mais voltarão
Já houve um tempo em que o tempo parou de passar
E um tal de homo sapiens não soube disso aproveitar
Chorando, sorrindo, falando em calar
Pensando em pensar quando o tempo parar de passar
Mas se entre lágrimas você se achar e pensar que está
A chorar; este era o tempo em que o tempo é!! "

Onde ir

 
 
"Eu não sei prá onde a gente vai
Andando pelo mundo
Eu não sei prá onde o mundo vai
Nesse breu vou sem rumo.."

Onde ir-Vanessa da Mata






sábado, 25 de agosto de 2012

Sol

Entra pela única brecha de pano,o sol
Invade a pele crua,queima a mulher branca nua
Pupila fecha correndo tentando cobrir a face
joga no rosto pálido o lençol
Alumia os buracos internos,joga fora o pedaço de escuridão que restava
Clareia a arte escondida num canto à parte de mim
É hora de sair do aconchego do pranto
Mesmo sabendo que lá fora é frio,um tanto quanto,de dor
preciso é que me entreguem ao rei maior,o astro do suor das cabeças,que faz escorrer na face
o pingo salgado do trabalhador
Ouvir mais à carne,o canto silencioso da rua que entorpece a mente minha
dos pensamentos já cansados,de certo,duvidosos
Abre-se a janela do corpo,ouve-se as notas do teu pisar
no chão de folhas secas jogadas pelo caminho
sei que hei de encontrar,pois hei de me perder
pelas esquinas da esperança,pelas escaladas do poder e da dança que me impulsionam pro ar
os olhos já podem ver,a boca já pode sentir e a alma já sabe sorrir
não te espantes,se acaso o mar resolver desistir
Pois que o rio já deixou de desaguar
jaz calafrio que a água está gelada,esperando a fonte mais a frente,pelo sol...esquentar!


Lia



Voz tua

Ouvir a tua voz caindo a noite
E saber que estas bem do meu lado
me dizendo o que fazer
não é somente o medo
É também o desprazer
de amar aquilo que não se é
E fazer aquilo que não se quer
Mas ter a certeza da missão
Que hoje trago nos ombros
Imbutino na alma
a incerteza de um destino inacabado
Nas diretrizes  desguiadas
Nas dúvidas falidas
Das almas tranpassadas
Do corpo suplicando auxílio
Dos monstros,das vozes
Dos loucos,insanos e perdidos ais.

Lia-


Pequena



Posso não regar flor que já morreu...
Tampouco esperar que cresca outra vez
No talo roído que a praga roeu
Posso nem querer broto novo
É hora de arrancá-la de vez
com todos os pedaços podres
sem cheiro,sem vida,sem cor
a flor que era viva e se desfez
em tão pequena dor...

Lia