quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Tragos



    O tempo passou devagar naquela noite.Os lençóis enrolavam por entre as pernas e as lágrimas molhavam a boca seca.O silêncio desaparecia nos pensamentos  fétidos e incansáveis.Parou e viu a sombra na parede,eram os erros que haviam surgido.Os problemas.As raivas e rancores.Como se já não bastasse aquela noite,o fígado estragado reclamava e a barriga gemia.
    E o pensamento?perturbador.Mais um dia vazio na vida daquela mulher...Enquanto se mechia,os outros brigavam na parede de cima,discutindo problemas ridículos e não muito interessantes.Ao lado,gritos e gemidos intensos,típicos de uma casa vermelha.Mas não,era uma casa de oração,imagina.Exclamavam o mais alto som para glorificar seu deus,pronunciavam coisas impronunciáveis e cantavam a música mais deprimente que ela já ouvira.Atrapalhavam e conduziam o desespero daquela pequena,que tentava dormir.
   E quando o Hialo nascia,a claridade invadia o quarto apertado,ilumindando o rosto sujo e o corpo nu.Lenvantou-se lentamente,foi esperar mais uma noite...Cansou de insistir.
"(...)Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas,de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero."

Texto: Lia,com "finalização" de F.Pessoa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário