domingo, 16 de janeiro de 2011

Futuro

Manuel ainda relutou,sentado na cama,antes de deitar,desligar a luz de cabeceira,enfiar-se debaixo dos lençóis.Não dormiu de imediato,seus olhos demoraram para fechar.Por fim fecharam e ele dormiu,e dormiu bem.Tem apenas uma vaga noção do que lhe aconteceria se tivesse ido ao encontro.Tivesse ido conheceria a mulher estonteante que Carlos contratara.Teria tomado do melhor champanhe,comido da melhor comida.Riria muito das piadas de Carlos,sujeito simpático à beça.Sorriria um pouco sem graça dos elogios endereçados a ele.Não deixaria de notar a maneira como a mulher o encarava,o jeito com que,voltando do banheiro,sentaria ao seu lado,roçando a perna na sua.A noite,o motel mais caro da cidade ela pagaria,e seria o melhor sexo que teria feito.Fim de semana passaria do iate de Carlos,mais champanhe,mais mulheres que pareciam nem existir,tão bonitas,tão solícitas,justo com ele,um sujeito bem sem graça.Não fosse pra cama,segunda-feira sua mãe lhe telefonaria,logo depois que um emissário do Doutor Carlos deixasse sua casa.Você é o melhor filho que Deus podia ter me dado,esse é o sonho de uma vida,Roma!,Jerusalém!,obrigada Manesinho,meu Manesinho!Manuel não teria corajem de dizer que era engano,que não havia presente algum.E quando Carlos o convidasse para jogar bola em seu sítio,com cantor sertanejo famoso,com ex-jogador da seleção,não conseguiria recusar.Jogando tênis, num sábado,perguntaria o porquê do abatimento do amigo.Carlos,hesitante,diria que precisava de um favor,porém não achava certo incomodá-lo,fazer com que se arriscasse.Dois dias de insistÊncia para Carlos revelar:precisava de cópias das propostas de outras empresas.Perdoasse-o por ter falado,é que a situação era  desesperadora.Manuel teria dito que sentia muito,nada poderia fazer.Carlos se desculparia outra vez,não tocaria mais no assunto.Uma semana e Manuel levaria ao amigo a lista confidencial.Em dois anos teria seu primeiro milhão,seu primeiro remédio para insônia.Em dez,dez.Uma mulher linda lhe daria filhos lindos que herdariam as fazendas,a casa de praia,as amizades.Nada na vida como as amizades.Manuel teria tido uma vida farta,uma vida ótima.E na hora de morrer,por um instante e com toda sinceridade,teria se arrependido.Se não tivesse ido dormir, naquela noite.Mas ele foi.Jamais provará do melhor champanhe,da mulher mais cara.Terá uma vida difícil de funcionário público.Casará com uma gorda que lhe dará filhos gordos,mesmo ele ficará gordo.sonhará todos os dias com o fim das prestações da casa própria,com a aposentadoria.Sua mãe morrerá sem ir à Roma ou Jerusalém,no máximo,Aparecida do Norte,de ônibus.Uma noite de domingo acordará e saberá que a morte se avisinha.Por um instante e com toda sinceridade ele se arrependerá.E fechará os olhos,sorrirá um sorriso quieto,sem alegria ou tristeza.E sem perceber,Manuel adormecerá.

Conto retirado do livro -"18 contos de corrupção",antiga leitura obrigatória do vestibular.
Autor do conto:Carlos Eduardo de Magalhães.

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